O PODER DA BOATARIA

Quem conta um conto aumenta um ponto, já dizia minha avó.
Ontem eu pude comprovar que essa frase tem total razão de ser. Sei que a situação da cidade de São Paulo é complicadíssima e que em alguns dias foram mais de 180 ataques e 96 mortos. Mas o que foi feito ontem simplesmente me deixou perplexo.
Por volta das 15:00 um vizinho do escritório onde eu trabalho veio comunicar que era para fechar os comércios, escritórios e demais estabelecimentos da região, pois provavelmente seríamos atacados com rajadas de metralhadoras e bombardeios.
Antes disso já tinha recebido, através de e-mails encamihados por amigos, algumas notícias dando conta que o laboratório da Universidade Mackenzie havia explodido, que o aeroporto estava sendo evacuado, que alguns comércios de rua em Santo André tinham sido saqueados, que mais de 300 presos haviam fugido, que todos os shopping centers da Capital haviam fechado sob o comando da tal facção e etc.
O pessoal aqui do escritório desligou os computadores e antes que eu desse por conta comecei a ouvir as despedidas. Todos foram embora.
Diante disso, aderi à fuga e no caminho para casa, que normalmente levo 10 minutos e ontem levei 45, me deparei com uma cena típica de filmes que tratam do fim do mundo. Era o verdadeiro caos, pois tínham ruas fechadas, carros desobedecendo sinalização, enfim, todo mundo querendo se "entocar" logo em casa, como se mísseis nucleares tivessem sido disparados na direção de São Paulo.
Ainda passei na padaria perto da minha casa, que tinha uma fila quatro vezes maior do que de costume e o pão estava em falta. Todos conversavam apavorados sobre as "histórias" que tinham ouvido. Houve até quem dissesse que uma creche havia sido atacada a tiros e que o alvo agora era pessoas engravatadas.
Até mesmo a tão esperada convocação para a seleção brasileira deixou de ocupar espaço nos telejornais.
A única pessoa que estava passando tranquilidade para o povo era o governador, mas em virtude do pouco tempo que está à frente do Estado e da pouca visibilidade que já tivera, ninguém acreditava.
Hoje o dia amanheceu normalmente, como sempre acontece. É verdade que alguns ataques aconteceram, possivelmente até por outras quadrilhas de marginais que se aproveitaram da situação. A cidade, ao contrário do que anunciava a boataria, não está destruída e aos poucos todos estão voltando aos seus postos de trabalho, inclusive os marginais que já deviam estar se sentindo prejudicados em seus "negócios", tendo em vista que, pelo pavor da população, a oferta por produtos a serem roubados, os consumidores de drogas e etc ficaram também escassos.

